quinta-feira, 20 de Março de 2008

A verdadeira história da CONFEDERAÇÃO DE TALVEZ



CAPÍTULO ZERO – INTRÓITO

Estão os nossos ouvidos tão cansados de ouvir as repetidas histórias dos antigos sobre as aventuras e desventuras dos seus antepassados e ainda mais cansados das variadas hipóteses sobre o destino dos vindouros que, apesar da nossa pobre capacidade literária, decidimos passar a escrito tudo aquilo que se tem ouvido.

É nosso compromisso aumentar o mínimo e acrescentar apenas o indispensável para que haja, digamos, alguma coerência no nosso relato.

CAPÍTULO 1 – O PASSADO

Há muitos, muitos anos uma tribo de hominídeos mais ou menos inteligentes e adoradores do sol, conhecidos, vá lá saber-se porquê, pelos Quistões, decidiu percorrer os vastos territórios verdejantes e húmidos da Eurásia seguindo, do sol, a sua trajectória para descortinar, a bem dizer, o local exacto onde se escondia, pois de onde se levantava já lhe conheciam o sítio.

E foi assim que atravessando o montes Pirinóis chegaram ao território quase desértico e muito seco da Euráfrica. Na verdade apenas pararam junto ao grande mar oceano porque a grande maioria ou não sabia nadar ou tinha da higiene uma particular cultura que não considerava o banho.

A bem dizer à fronteira do mar apenas chegou metade da tribo, já que a outra metade se tinha ficado no quarto quinto do território da Euráfrica.

E houve uma razão.

Depois de tantos anos em busca do poisio do sol a tribo tinha-se partido em dois, digamos assim, divididos. Para que melhor entendam a questão talvez convenha refrasear o texto para dividido em dois partidos.

Houve até quem lhes chamasse crenças ou religiões, mas valha a verdade que aquilo que os dividia eram principalmente os interesses e creio, em boa mente, que a melhor designação para aquelas partes é, efectivamente, partidos.

E porque se dividiu a tribo?

Diz a tradição oral antiga que os Quistões chegados à Euráfrica eram compostos por duas comunidades distintas. A que designamos por primeira, por ser a de maior número, chefiada por um tal de Litor Al, era composta na sua maioria por gente de pele muito clara mas muito resistente ao sol e que facilmente se deixava bronzear nos tempos de Verão sendo, por isso, muito apetente à luz das grandes planícies. A segunda, chefiada por um tal de Inter Ior era composta por gente de pele tisnada, pouco dada às grandes tardes luminosas e abrasadoras, e muito desejosa do tranquilo recato das apetitosas sombras.

Tais diferenças não seriam, mesmo assim, razão principal das diferenças não fora a questão dos locais do sol. De onde se levanta e de onde se esconde, bem entendido.

Litor Al e Inter Ior não escondiam a ninguém as suas desavenças. O primeiro desejava, mais que nada, descobrir o poisio do sol. O segundo manifestava-se cada vez mais satisfeito com a certeza do seu berço.

Pois bem, chegados ao quarto quinto da Euráfrica decidiram fazer um concílio. Tal reunião plenária ficou para todo o sempre conhecida como o Concílio das Berças, pois foi aí que todos os novos princípios ficaram decididos.

Irredutíveis, os dois chefes, não conseguiram entender-se para continuar a viagem em conjunto e, porque havia das duas comunidades quem não tivesse manifestado objectivamente por qual partido se partia, decidiram fazer duas manifestações. Elas decidiriam quem ficava e quem continuava.

- Quem do sol deseja saber o seu poisio que volte a sua frente para onde eu virar a minha, pois creio saber como conduzi-los ao seu esconderijo! Disse Litor Al.

- Quem do sol já sabe e reconhece o seu berço não volte a sua frente ao desconhecido. Mostremos-lhe como eu, não a frente mas antes o seu oposto. Retorquiu Inter Ior.

E foi então que a imensa mole humana dos Quistões se dividiu definitivamente.

De frente para o mar oceano, que só imaginavam, ficaram todos o que seguiriam viagem.

De oposto ao desconhecido mar ficaram os que decidiram fazer da permanência o seu novo território.

Os que partiram fundaram, com base na sua postura, o território do Frentisquistão, mais tarde também designado geograficamente de Litoral, por homenagem ao seu histórico chefe.

Os que ficaram fundaram, também com base na sua postura, o território do Cuzaquistão e que, por idênticas razões históricas, viria geograficamente a designar-se por Interior.

Desde então Frentiquistão e Cuzaquistão nunca mais se entenderam. Foram-se imitando, é verdade, à medida das conveniências, na organização política, nos tiques sociais, no aparente desinteresses pelo supérfluo e, sempre que puderam, não deixaram de tentar interferir na vida do seu oposto, por via de migrações convenientemente aceites entre ambos, de invejas pessoais ou interesses económicos de acordo com as estações do ano (os de Frentiquistão sempre adoraram o frio e as neves do Interior e os de Cuzaquistão nunca perderam oportunidade de tentar iodar as suas vidas com visitas sazonais ao Litoral).

E foi assim que tão unidamente divididos chegaram aos Vigésimos Primeiros Tempos, para tentar, talvez depois uma confederação política – A Confederação de Talvez.

Destas e outras tentativas, assim como dos documentos, a maior parte avulsos, tentaremos, talvez, fazer notícia sobre o que pensa terem sido as origens e os desenvolvimentos de...

…A CONFEDERAÇÃO DE TALVEZ

Território do tamanho do mundo, confinado, por conveniência e falta de alternativa, a uma área de carroça colectiva, fundado por 35 indómitos mosquiteiros em concílio, depois de alguma cavalheiresca disputa, algures entre o desactualizado Portugal e a artificial Espanha, nos idos de 21 a 25 de Abril dos anos 007.

Documento sistematizado por um cronista, dizem que Marroquino, de seu nome Yussef Dy Ahs Santhos Py Rez, pelos cristãos conhecido por José Pires

O Idioma

Algures entre aquém e além do Rio de Tojo procurámos, entre os mais inimagináveis esconderijos, um sinal. Naquele tempo e à falta de melhor, porque nenhum de nós em tal missão sabia falar esperanto, tentámos estabelecer a compreensão da mensagem num idioma que pudesse por todos ser inteligível.

Foi assim que a partir de um velho papiro pudemos, talvez, imaginar um código a partir do qual foi possível (julgamos nós e salvo melhor parecer) descodificar todas as mensagens.

PAPIRUS TAMAGHOSHY (Declaração Primeira)

ASHI TEMA TSU Quem por arrependimento

TOYO TA Ou talvez

KAVA SAQUI Por convicção

DAIA TSU Quiser mudar

TO KIO De país

SU MO Tem que

GUEI SHA SHA Pedir duas vezes

SAYO NA-RA A desvinculação!

É espantoso como no meio das nossas, naturais, incompetências linguísticas (e não só) sempre pudemos socorrer-nos de inesperadas revelações que acabam por nos espantar.

Do como e do porquê se espantavam os quistões e sobre o que pensavam das suas viagens para encontrar o local onde o sol se escondia

(Documento gravado numa pedra mais macia do que aparentemente parecia quando a vimos pela primeira vez).

Estas viagens de amigos

Feitas, na Euráfrica, por locais estrangeiros

Já não são o que eram de antes.

Os guias de Litor Al são muito antigos,

Os assessores de Inter Ior engenhoseiros

E as odaliscas, da ambos, quiromantes!

O pior é que elas lêem

O nosso futuro na mão,

Com saberes licenciados,

Amor, dinheiro e revés.

E se acaso algo falha

Têm pós-embruxação

Que nos deixam descansados:

Lêem o resto nos pés!

Registos em papiro velho de notícia de um chefe quistão que, por não estar de sobreaviso se deixou cair no canto das sereias (NT: no conto do vigário?).

O pesadelo e a odalisca

Estava Ludovico posto em sossego

Usando das mãos, apenas,

O digital efeito,

Quando um par de odaliscas,

Com natural apego,

Lhe leram contradições amenas

Das quais não mais ficou refeito.

De tal modo ficou assim

De emoções desarrumado e sem dono,

Que Ludovico esperando outra palavra, algum desvelo,

Já exausto julgou dormir, por fim,

E afinal foi perseguido durante o sono

Por um islâmico e odaliscado pesadelo!

Perseguições, julgamentos populares, transplantes

(Tudo o que de mau no sono acontece)

mudavam a Ludovico, no finalmente, as origens!

Lidas as mãos já nada fica como dantes

E até aquilo que um bom cristão não esquece

Chega para setenta mil virgens!

Pobre Ludovico que no inocente

Estender de mãos arrisca

Ficar com o seu ego bem doente

Depois de uma leitura de odalisca!

Nota sobre o silêncio, por vezes roncado, que se ouvia na grande carroça, quando era a pausa entre a busca do poisio do sol e a vontade de ficar na certeza das berças.(Documento colado com cuspo de sapo).

O silêncio quistão

É tão triste o silêncio.

O silêncio é tão triste

Que nunca tão triste viste

Silêncio tão silencioso!

O tão é silencioso

O tristêncio é soliste

Que nunca o viste

Não é?

O pássaro que não passára é triste!

O gato que não gateia é triste!

O cão que não caneia é triste!

O lobo que não lobeia é triste!

Todos tiveram um pouco de silêncio

Para se habituarem à ideia, ouviste?!

Subitamente, numa bela manhã de sol chovido, alguns dos Quistões foram atacados de febres. Houve quem defendesse tratá-la com canas de fogo (foguetes?), outros alvitraram poder atalhá-la com supostas bolotas a que chamaram supositórios. Temiam, afinal, os que de calor sofriam, que al cu entrasse um qualquer antipirético.

Quando supostas bolotas são alcuentre antipirético

(Ainda antes de sistematizarem a medicina curativa os Quistões listaram as possíveis febres em duas dúzias de bolotas amargas)

Ele há febres

Para todos os gostos.

Ele há febres

para todas as situações.

Ele há febres

para todos os rostos

E febres para todas as ocasiões:

Para os que ruminam

Pensamentos amenos – a febre dos fenos.

Para quem dorme

E não trabalha – a febre da palha.

Para quem trabalha com o coiro – a febre do oiro.

Para os homens mulheres

E as mulheres homens – a febre dos pólens.

Para quem cala

E só protela – a febre amarela.

Para quem na rua

Se afoite – a febre de Sábado à noite.

Para quem

Daqui não passa – a febre da carraça.

Com tanta febre existente

É pedido em profético

Num gemido recorrente

Um alcuentre antipirético.

Sabe-se que as febres causadas pela demanda do local onde o sol se escondia originaram a ingestão de algumas supostas bolotas antipiréticas. Alguns relatos incompletos fazem-nos supor que não foram engolidas mas sim, digamos, ascendidas. A verdade é que geraram entre os febris aventureiros, flatulências indiscretas (daquelas que perseguem sempre o seu autor) às quais o chefe Inter Ior designou, a partir de então, por Peido-cão.

Para que se saiba o que é o Peido-Cão

(Discurso improvisado proferido, ainda de madrugada, numa manhã de Abril e registado numa casca de sobreiro)

Sabeide todos que Peido-cão é um gás teimoso

Que nos acorda e faz perder o sono

E que, para ser, nesta comunidade, proveitoso,

Se obriga, a partir de hoje, a seguir sempre o seu dono.

Sabeide ainda como tratar o Peido-cão com um alcuentre antipirético:

Al cá: ser ou não ser, era até hoje, a questão. Al á: é sabê-la responder com precisão. Al i: o que importa é especificar a definição antes que al cu entre diferente medicação.

Sabeide, por fim, o que é então um alcuentre antipirético, para que o não deglutine, de mão cheia, quem o deve elevar apenas com um dedo:

Elevai o alfoguete

de albaixar as febres de alquivir!

Ele subirá aldepressa

p’ronde costuma alsair

o que do algaz é promessa!

Sabeide que nem dá para alsentir

num segundo ilusório

que é um alsupositório!

O principio da desilusão colectiva de um só povo uma só nação.

Passara-se já a sétima dúzia das trinta dezenas de luas dos Vigésimos Primeiros Tempos. Litor Al e Inter Ior continuavam a não esconder a ninguém as suas desavenças. Pior! Instigavam os pequenos quistões, seus herdeiros, a fazer notícia de tal diferença, ridicularizando-se uns aos outros.

(N.T. – não foi fácil traduzir o documento que em seguida se transcreve e, mesmo temendo algumas lacunas, arriscamo-nos a trazê-lo ao vosso conhecimento)

Papiro de Celinha, a filha de Inter Ior, ridicularizando, Mari Lu, a filha de Litor Al.

É sabido que os nossos pais e as nossas comunidades não se entendem. Estamos segundo sei de costas voltadas. Mesmo assim porque afinal sempre haverá negociatas necessárias temos tido oportunidade para alguns intercâmbios escolares.

Esta coisa dos intercâmbios até tem piada a minha escola fez um intercâmbio com uma escola do Frentiquistão e depois pediram-nos para fazermos uma redacção imaginando que a nossa escola ficava lá foi por isso que escrevi este diário de uma semana imaginando a maneira como escreveria a Mari Lu que é a filha do presidente deles ora porque era assim nesta linguagem que falava quando a fui visitar dizendo umas boas centenas de vezes penso eu penso eu só para parecer uma intelectuala que pensa eu tenho quase a certeza absoluta que ela pensa como fala e por isso vou tentar imitá-la pedindo desde já desculpa se não conseguir atingir o seu elevado nível penso eu!

O diário da Celinha à moda da Mari Lu

Chelentíssimo cenhor Presidente do Cuzaquistão fica çabendo qeu vivo na Républica Muinto Anárqica do Frentiqistão e axo ke non tãeins razão cuando nos tratas acim abaicho de cão penço eu istaqi até é buédafiche e a malta mesmo xavalos comanós té já curte mas becas buédanaisses porcauza dos cabos darame grosso ke lévão a altatenção ke nos dias de vento té fazeim faíscas caté paresse fogo dartifissio e depois vãeiem os bacanos do blocodasqerda da praia de cascais e coiso e trazeim uns bombos e umas gaitas ké prá malta protestar e tamãe vâeim os comunistas ke nasserão aí e poiem a malta afalar mal do governo e tudo ali hás eu té tenhum diário qeu xecrevo todos os dias tázaver e tamâe me qeicho o kéke julgas ó cota téporqe o primeiro ministro nasceu a i no cuzaqistão ó non foi? penço eu foscasse.

Çegunda láxetou otravês atrazada tive 10 minutos háxepera de paçar as filhasdaputa das paçadouras mas os carros de bois as carrossas i as mulas mesmo cogoverno ómente apalha são maicasmoscas oqe me valeu foi cuandum cota paçou i eu mamarrei ó lado do gaijo e atravecei Terssa o meu velho diçe queu çou uma maricas por ter medo dos carros de bois das carrossas i das mulas maseles é kenon teim medo de mim e pareçemsse com o primeiro ministro ke non teim medo daqele gaijo do norte do Tojo da opozissão mas lá no fundaté teim penço eu cumcamano Cuarta a cetora oije diceme keu tenho colhar prós dois lados antes datraveçar masiço já eu cabia çó cas carrossas são comóspoliticos kuando eu oilho prásquerda já vãeiem do outro lado da direita e non param na paçadoura foscasse Qinta um filhadaputa dum carrosseiro iamatropelando oije de manhã çó porqeu paçei fora da paçadoura e diçeme keu non ligo nada hás regras i hás leis i té paresso do governo maziço é mentira a paçadoura é kestá tão veilha qe já kuàze non se veiem as riscasdela os gaijos da Cambra pintarãonas mal penço eu e depois o meu pai é kas pagou ó xetacionar a carrossa num cítio onde dantes avia uma paçadoura e cagora já non tà là riscada até porqe puzeram lá um pizo novo da terra batida caté já teim buracos mas cainda ção peqenos çó ke colqer dia já ção otravês grandes o ke vale é qele dis ke non paga a multa çaté os deputados tamãe as non pagão penço eu Cesta paresse keuxetou embruchada oije xegei otravês atrazada mas non foi porcauza do tranzito foi porcauza do cítio donde paçam os carros de bois tão non é Ka Cambra dessidiu pintar aqilo? logoije qeu vinhá oras? çó keu dice então proqéqe non vão pintar antes a paçadoura ou punhão lá um cinal com dois bacanos de mão dada qéra prás carrossas pararem penço eu só kum dos gaijos amandoumá merda i eu amandeilhe um calhau há tola como forma de portesto e fuji prátraveçar maizáfrente e tive qesperar poruma velha da idade da minha mãe que paçáçe prós lados da minha escola e paçou mas já foi atrazada i eu lá tive douvir um ralhete do carassas proqa minha porfeçora té anda xatiada co ministério proqe ço pode descançar depois de velha penço eu i depois keim paga somos noz é bué da xato porra Çábado e Domingo vá lá koje non àscola i os meus pais i eu i os meus irmãos vamozá terra dos meuzavós lá no cuzaqistão ondaquela gente toda fala xequizito comuintos éces e zês nas palavras ó menos dá parrir pençoeu i non àscola o qé melhor çó non perssebo proqé co meu pai canda çempre a portestar procauza do descanço ó da reforma ó ló doké oije té açobiava kando diçe kiamos para a reforma agrária eu cá non precebo nada disto mamesmo açim boralá.

Outras vezes, para aumentar ainda mais a divisão, chegavam aos dois lados da desavença (Frentiquistão e Cuzaquistão) mensagens de um tal Alem Tojo.

Dizem que Além Tojo é um quistão desavindo que, não aprovando a separação do seu povo, decidiu separar-se dos que se separam, fundando a Região Autónoma do Além Tojo.

Parece que Além Tojo se entretinha a gozar com a desavença e, de vez em quando, mandava missivas, bem venenosas, para os governantes de ambos os lados, escondido no pseudónimo de Padre. Com.

Como esta:

Aqui, as vossas sombras são o nosso sol!

Dá sombra o sobreiro

a quem debaixo dele se coloca.

lá longe, o porco come,

descansado

e a sós,

uma bolota de um parceiro

como nós.

Coloque-se a bolota

debaixo de quem dá o sobreiro:

quem come, à sombra,

o descansado porco

do parceiro?

Somos nós?

Ná!

Lá longe uma bolota.

Descansado o sobreiro.

Debaixo o porco,

a sós.

Quem se coloca,

come sempre à sombra

do parceiro!

Isso sois vós!

Como já não havia volta a dar. Entre alguns desempregados da política oficial da época, cientes de que nem todos os Rolha-Quistões (NT: Políticos ou dignitários ou outra coisa qualquer que estão sempre à superfície dos interesses) chegariam aos poderes superiores, puxou-lhes o pé para a dança. Aceitando a divisão inevitável do território entre o que de facto é e o que é supositório, nasceu, naturalmente, a República Significativamente Organizada do Cuzaquistão.

Foi pois sem surpresa e com toda a pompa e circunstância que Inter Ior apresentou, perante os resistentes cuzaquistanenses, o texto progenitor da nova república.

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DO CUZAQUISTÃO

Prólogo Preambular

A República Significativamente Organizada do Cuzaquistão, adiante designada por Rep. Do Cuz, é uma sociedade democrática republicana, laico-religiosa e nobiliárquica, na medida de todas as inconveniências e de todos os endireitados direitos.

Artigo 1º

Na Rep. Do Cuz quem manda é o povão, sempre que a votação não contrarie a superior decisão.

Artigo 2º

Na Rep. Do Cuz o território é sempre provisório, bastante transitório e, mais fila menos fila, supositório.

Artigo 3º

A Rep. Do Cuz admite democraticamente o enclave de Além Tojo, à qual pertencem as províncias de Bolota e Porco Preto.

Artigo 4º

Na Rep. Do Cuz todos os lugares são ocupados por mérito, seja ele qual for.

Artigo 5º

Na Rep. Do Cuz estão proibidas as formações independentes terminadas em dias de semana.

Artigo 6º

A Rep. Do Cuz não tem língua nem idioma, tem lábia de ora toma.

Artigo 7º

Na Rep. Do Cuz a revolução não se faz a 24 para se desfazer num qualquer 25 e acabar num 31.

Artigo 8º

Na Rep. Do Cuz os parabéns são sempre cantados em três versões: a popular, a religiosa e a política.

Artigo 9º

Esta Constituição pode ser vista mas fica determinado que em nenhuma situação pode ser revista ou reformada, porque nesta república não é admitido o revisionismo ou o reformismo, apenas se tolera (talvez) o aposentadorismo.

Sabendo claramente que quem tem entre os seus um Ludovicus Primus de Costae Largorum, Primaz de Todas as Costas Voltadas, a Rep. De Cuz não quis dar-se ao luxo de dispensar uma concordata, fosse ela qual fosse e fê-la redigir em papiros de teia de aranha e baba de andorinha.

CONCORDATA

Laudeamos Igitur

No ano da graça de nosso senhor e de todos os outros luciferinos santos, se celebra sob beneplácito de Ludovicus Primus de Costae Largorum e abençoado pelo Bento Pio, a seguinte concordata:

Laude 1

Concordaremos com tudo o que for possível: a pomba, o espírito e o santo também.

Laude 2

As imagens dos santos serão de plástico duralex para que não haja a possibilidade dos santos ficarem com pés carunchosos.

Laude 3

Para a tranquilidade dos crentes não há videntes, só evidentes. Não haverá quiromantes, só amantes. Não haverá sacerdotes, só dotes. Não haverá bispos, só vistos.

Mas, para tranquilidade dos restantes mortais haverá sempre cardeais.

Laude 4

Os cardeais são indispensáveis pontos de orientação. E, como são pontos, só eles podem ser pontífices.

Laude 5

Para tranquilidade das boas almas não há inferno, apenas jardins de Inverno.

Laude 6

As almas penadas não têm purgatório, antes lhes é concedido o ejaculatório.

Laude 7

As vidências serão toleradas como apócrifas nos jardins de Inverno apenas (a pé nas) como cerimónias de lava pés.

Laude 8

Com esta concordata se aclara separar-se a gema da clara, isto é, a igreja do estado. Contudo, na impossibilidade de separar o ovo, é feito uso da sabedoria popular unindo-se o estado à igreja.

Revelando alguma organização jurídica, encontramos um interessante texto que respaldava a concordata. Ei-lo.

Informação Causídica

A pedido de quem pediu e autorizada por quem podia autorizar se elaborou salvo melhor parecer (que duvido exista) a seguinte informação causídica, como parecer definitivo, a bem dizer uma ordem depois de expurgado do acessório (o que fazemos todos os dias à noite, embora uns se limpem e outros não, mas isso é problemas deles) acolhe-se o essencial, o mesmo é dizer encolhe-se e faça-se conhecer em acto público, de preferência à hora do Telejornal, para ratificação automática, com todos os efeitos possíveis e imaginários o seguinte:

É de concordar obrigatoriamente.

Charles de Souza

CRPO

(Causídico Reconhecido pela Putativa Ordem)

CAPÍTULO 2 – O ANTE PRESENTE

Como o enclave de Além Tojo tentou salvaguardar a sua natureza interior e reservada.

Documento, em papiro mal tratado, recuperado algures entre uma moita e um silvado, depois de descodificadas algumas mensagens gravadas a canivete nas cascas das árvores e que, presumimos nós, diriam:

Que nos convença

não há passado, nem presente, nem futuro:

À nossa volta apenas um muro –

Da indiferença!

As vossas Fronteiras Naturais são as nossas Naturais Fronteiras

Caros cuzaquistanenses:

Queremos acreditar que a República Significativamente Organizada do Cuzaquistão sempre sobreviveu às injustiças que, à luz de tratados, mais ou menos convencionais, sempre privilegiaram a República Muito Anárquica do Frentiquistão, principalmente no que concerne à questão, nunca resolvida, de se situar apenas no seu litoral o direito às praias, enquanto no interior, onde tem estado remetida, vão ficando as reservas de caça que, para os governantes do Frentiquistão, representam a potencialidade do velho sonho de as transformar em reservas de índios.

Aqui e aí, índios todos somos.

Nada que a Geopolítica não complique e os gases não resolvam.

Afinal, p’ra além dos seus devaneios,

que sabem os frentiquistenses de fronteiras naturais,

(entre a gravata o laço, sapatos rasos ou de tacos)?

- Que afinal são os sovacos

(depilados e banais)

as fronteiras dos seus seios?

E os senhores dos cadeirões

antes de redigir ofícios

(p’ra si sempre maravilhas)

sabem as naturais fronteiras?

- Os limites das asneiras,

que julgam estar nas virilhas,

vão disfarçando os seus vícios

no silêncio dos salões?

Além Tojo ou Cuzaquistão

só tempo nos preserva

e o espaço não se discute

na geopolitiquice das fronteiras naturais.

Só podemos dizer não

aos que nos querem reserva

com limites de Auto-SCUT:

Fronteiras assim? Nunca mais!

Não temos olhos em bico, nem tocamos castanholas!

Flamengo, para nós é queijo, haja ou não famosa dança

entre esganiçadas vozes de anafadas espanholas.

Nós até com feijões faremos do nosso fado a festança!

Não nos engana esse flamengo

em voga na geopolítica

que tem um cantar mostrengo

tal qual mula paralítica.

Aqui comemos feijão

p’ra depois fazer as pazes

porque a grande diversão

faz-se a partir dos gases.

Feita bem a digestão,

com qualidade e nas calmas,

ao som do gás nasce a canção

que acompanhamos com palmas!

Como vós também nós somos os índios das novas fronteiras

Com fios de coco às laçadas

Os índios de cá têm a mania

De construir os sonhos às pedradas

Descobrindo nos céu as penas da alegria.

Com os lábios gretados da alergia

Escolhem apenas as penas de cores vivas

Guardam no bolso seixos redondos da ria

Para caçar nos galhos as aves mais esquivas.

Os índios à entrada das fronteiras

Dos territórios dos velhos que ficaram

Vão aprendendo a usar toucas e coleiras

Feitas das penas das aves que caçaram.

Com sorrisos desdentados e forçados

Fazem de conta que sabem a dança da chuva

Entre bocejos vendem recuerdos certificados:

Da Região da Muita Parra e Pouca Uva.

Dividem côdeas e cascas com os gatos

Que os cães há muito que foram para o litoral

Esperando que eles cacem e tragam muitos ratos

Com os quais cozinham um ensopado divinal.

Os índios à entrada das fronteiras

Dos territórios onde só há estevas e ervas

Vão aprendendo as mil e uma maneiras

De promover o turismo nas reservas.

E as palavras, de tão velhas, soam a novas

Para enganar os índios e todos os seus

Saem das bocas dos que mandam como trovas

Agradecendo a miséria Graças a Deus.

E assim mirrados a fogueira rodeando

Os índios juntam os gatos caçadores furtivos

E entre olhares gulosos lá lhes vão cantando:

Deo Gratias! Estamos magros, mas estamos vivos!

Os índios à entrada das fronteiras

Dos territórios dos velhos que ficaram

Vão aprendendo a usar toucas e coleiras

Feitas das penas das aves que caçaram.

Os índios à entrada das fronteiras

Dos territórios onde só há estevas e ervas

Vão aprendendo as mil e uma maneiras

De promover o turismo nas reservas.

Padre. Com

Mal rascunhada, no verso de algumas páginas, estava a resposta que, presumimos nós, nunca chegou.

Boeiros ou sargetas? Talvez as bocas da rua.

Mais que novas fronteiras nós, como vós, somos, infelizmente, as velhas sargetas.

Toda a vida lhes chamamos por aqui, no Cuzaquistão, de “boeiros”. Serviram-nos como balizas para a iniciação desportiva do futebol com bolas de cortiça. Alguns dos nossos infantis amigos, mais dados à poesia, designavam-nos por bocas da rua. Coisas.

Sabemos que lá nos litorais do Frentiquistão lhes chamam ainda hoje como sempre – sarjetas. Sarjetas?! Tudo bem, cada um as usará como entender. O pior é que desconfiamos que, dado o movimento incontrolado das ruas, tenham sido levadas as tais sarjetas para dentro dos gabinetes e tenham tomado de assalto a maior parte dos gabinetes, transformando-se na ruidosa e hiperpalavrosa boca de todos os poderes. Nós por cá preferimos, ainda hoje, as bocas da rua e o que elas simbolizam do silêncio necessário à nossa revoltada tranquilidade.

Inter Ior, o chefe do Cuzaquistão.

CAPÍTULO 3 – TALVEZ O PRESENTE

É nossa convicção que o tempo sempre foi uma coisa complicada entre todos os quistões. Por isso não temos a certeza de datar correctamente todos os documentos.

Algures perdido entre um arquivo ou uma dispensa onde nos deixaram investigar encontramos um documento que nos pareceu estruturante da nova realidade política dos desavindos quistões.

Designado por Tratado da Confederação de Talvez, tem fundadas características de uma iniciativa política dos Rolhas Quistões, capazes e desejosos de novas e consolidadas navegações à superfície.

Talvez este seja o documento da modernidade. Será?

Ao vosso avisado julgamento deixamos a decisão.

TRATADO DA CONFEDERAÇÃO DE TALVEZ

Preambulo:

Considerando que:

1 – O povo é quem mais ordena e el pueblo quien mas ordeña;

2 – Apesar de los pesares, das sortes e dos azares todos somos mas o menos pueblo;

3 – No ai razão para la ignorância e que quem ignora jamas alcancia;

4 – Considerando aún e finalmente que é sentado, refastelado, encostado, descansado que se hacem las mas tranquilas revoluções e se tomam as mais definitivas decisões (porque depois de tomado o que tomado está, tomado fica) os povos da RMAF (República Muito Anárquica do Frentiquistão) e da RSOC (República Significativamente Organizada do Cuzaquistão) decidiram confederar-se e constituir a ROTA (República Organizadora do Talvez Amanhã), aceitando o que adiante articulado fica:

CAPÍTULO I – DO TALVEZ

Artigo 1º

Confederados e ponto, talvez a gente se entenda.

Artigo 2º

Confederados, numa pitada de anarquia, talvez a gente se estenda.

Artigo 3º

Confederados, num mínimo de organizada desorganização, talvez sintamos a definitivamente provisória diferença entre o sim e o não (o talvez).

Artigo 4º

Confederados e sentados talvez compreendamos o verdadeiro valor dos sapatos.

Artigo 5º

Confederados, numa democrática compulsividade, talvez se atenue o que nos divide pela idade.

CAPÍTULO II – DO POR VENTURA

Artigo 6º

Por ventura haverá dificuldades.

Artigo 7º

Por ventura haverá diferenças.

Artigo 8º

Por ventura haverá oportunas oportunidades.

Artigo 9º

Por ventura haverá, no social, condensos e condensas.

Artigo 10º

Por ventura, se o talvez que foi e o quiçá que virá quiserem, confederados haveremos Papa!

CAPÍTULO III – DO QUIÇA

Artigo 11º

Confederados, os nossos engenheiros serão reconhecidos pela Ordem dos Quiçás.

Artigo 12º

Confederados teremos um ministério, quiçá uma secretaria de estado, talvez uma direcção geral e por ventura, se a dita (ventura) nos não acompanhar, teremos, pelo menos, um lugarzito de contínuos à nossa espera. Quiçá?

CAPÍTULO IV – DA ORGANIZAÇÃO POLÍTICA DA NAÇÃO CONFEDERADA DE TALVEZ

Artigo 13º

Compromete-se o governo familiar constituído (ver adenda) a partir do presente tratado de confederação a regulamentar quiçá um dia talvez a organização política da Nação Confederada de Talvez por ventura nos próximos 50 anos!

ADENDA AO TRATADO

RELAÇÃO DAS PRINCIPAIS E ARISTOCRÁTICAS FAMÍLIAS DE ENGENHOSAS INDUSTRIAS DETENTORAS QUE CONSTITUEM A CONFEDERAÇÃO DE TALVEZ E DOS MI(NI)STÉRIOS QUE LHE SÃO ASSOCIADOS.

Família BarrosoOs De Barroso – da GALP.PT (Galinhas e Animais de Leves Penas Potencialmente Transaccionáveis) – Pasta da Presidência do Conselho (Concelho?) à Falta de Pior e Por uma Questão de Hábito.

Família CaldeiraOs De Caldeira – da FSP (Fábrica de Sopas da Pedra) – Pasta das Ralações Externas.

Família ConceiçãoOs De Concepção – da DINEFER (Distribuidora Internacional das Necessidades Emergentes de Fecundação e Reprodução) – Pasta da Industria de Tapar Buracos.

Família CostaOs De Dias-da-Costa – da AVE-MS (Agências das Viagens Extraordinárias na Margem Sul) – Patriarcado e Pasta Plenipotenciária de Todos os Turismos.

Família DuarteOs De Matos Duarte – da SILAMPOS (Sociedade Industrial de Leitura Artística de Mãos e Pés Ortopedicamente Sustentados) – Pasta de (alguma) Cultura.

Família EstevesOs De Estevas – da RC (Reservas de Caça) – Secretaria de Estado do Que Resta da Agricultura.

Família FaustinoOs De Fausto Tino – da SER (Serviços Exuberantes da Razão) – Pasta da (Cons) Ciência.

Família HipólitoOs De Hipo-Litos – da IP (Industrias das Pequenas-pedras) – Secretaria de Estado do Vamos Lá Atão.

Família Ferreira EstevesOs De Lei – da OCR (Ourivesarias Certificadas e Reconhecidas) – Pasta da Pasta.

Família MiguelOs De Miguel – da CP (Cartografia em Papel) – Direcção Geral do Território Enquanto Houver.

Família NizaOs de Niza – da IBM (Industrias das Bilhas Mais-ou-menos-alentejanas) – Pasta do Piqueno Comércio.

Família PiresOs De Pyres – da HP (Hoteleria do Pequeno-prato) – Direcção Geral da Agitação e Propaganda.

Família RodriguesOs De Rodrigo – da FDT (Franchising dos Doces Tradicionais) – Pasta de Todos os Interiores.

Família SobreiraOs De Sobreira – da TIR (Trust Industrial da Rolha) – Coordenação dos Serviços Laterais de Menores.

Família SousaOs De Souza – da IQEA (Industrias dos Queijos de Escalos e Alcains) – Pasta da (In) Justiça.

Família ToscanoOs De Toscanna – da CMVM (Central Manufacturadora dos Vinhos Mediterrânicos) – Pasta de Alguns Transportes.

Família ValadaresOs De Valladares – da ATLAS (Ateliê de Todas as Loiças de Aliviar Sentado) – Pasta dos Bons Costumes e de Alguma Educação.

Família VazOs De Pêra Onde Vaz – da IOL (Industrias de Orientação Livre) – Secretaria de Estado do Desbenfica (Nunca daríamos ao Raul nada que tivesse a ver com Porto).

Desalentada nota do Além Tojense Padre.Com, enviada ao chefe Inter Ior descoberta enrolada numa pedra e esquecida numa das estantes dos arquivos.

ESTÁS A PERCEBER Ó PÁ?!

Andais a construir uma trincheira

Com as nossas pedras da sopa

Arranjando a melhor maneira

De bem encher a boca.

Recuperais a carteira

Reinstalais o verniz

Reconvertendo a maneira

De bem meter o nariz.

Em cada prato de sopa

Colocareis uma mosca

Mas toda a gente já topa

A razão dessa marosca.

Assim não dá!

Já arranjei outra pedra!

Estás a perceber ó pá?!

Padre.Com

CAPÍTULO 4 – QUIÇÁ O FUTURO

Durante o tempo em que nos foi permitido andar nos corredores dos arquivos e das dispensas fomos ouvindo, em surdina, uma máxima que os amanuenses da Confederação de Talvez iam passando uns aos outros “Tudo menos o arquivo dos sonhos de Platónico!” (NT: Platónico é o novo chefe da Confederação de Talvez que se julga herdeiro de todos os passados e predestinado a imortalizar-se na história).

Ficamos ainda mais curiosos. Afinal o velho boato do chefe que adivinhava o futuro podia ser verdade.

E era!

Escondido entre o Livro dos Livros da Opus Dei – A Via Sacra e o Tomo dos Tomos da Maçonaria – O Grande Oriente Orientado, estava um maço de papeis atado em três voltas de fio barbante: Platónico – Os sonhos. Quem disse que não posso adivinhar o futuro?

Num frémito frenesi tentámos ler tudo o que nos foi possível e disso fazer registo. Temendo não ter conseguido ser absolutamente fiéis, mas sabendo como tais escritos podem ser fundamentais para a compreensão da Confederação de Talvez e do seu futuro, mesmo que corramos risco de vida, aqui vo-los deixamos (Os sete sonhos de Platónico e duas notas finais preocupadas):

1º Sonho – A educação, sempre a educação!

DECRETO-LEI Nº 31 mil e muitos que hei-de fazer publicar num futuro Agosto

ADENDA PARA A CRIAÇÃO DAS ESCOL@S B@SICAS ENTREG@D@S -

Tendo em consideração que:

- Na Confederação de Talvez, apesar dos pesares, ainda há tempo para o lazer;

- Estando a jornada de emprego reduzida a cinco horas diárias (para efeitos de cálculo remuneratório) não obstando que, de acordo com as liberais determinações de públicos e privados e em consonância com a flexisegurada globalização, deva a jornada de trabalho ser sempre superior a oito horas,

Determina o Governo, através do seu Ministério das Escolas, o seguinte:

1 – Devem os Colégios públicos e privados (CPP), e as Escol@s B@sicas Entreg@d@s, propiciar as condições para a implementação das Oficinas Compulsivas de Lazer (OCL);

2 – As OCL obrigam-se a ser o complemento diário de qualquer formação ou actividade profissional e, porque são de lazer, para os docentes aos quais couber a responsabilidade da respectiva gestão, corresponderão como carga não lectiva semanal como contributo efectivo do sistema para as suas próprias actividades de lazer e enriquecimento pessoal e social;

3 – Nas OCL estará, obrigatoriamente disponível, uma imensidão de actividades e cursos, dos quais se salientam a apreciação maquetada e a prática simulada da música, a aproximação teórica às artes, sinóptica da literatura, sistemática do teatro, indexada do cinema e muito comedida do jornalismo, como fontes de experiências estéticas ricas e variadas quanto baste para a estratégia cultural da desculpa;

4 - As formações educativas (formais ou informais) oferecidas pelas OCL devem estender-se (estendidas, trambolhadas, no sentido linear do termo) ao longo da vida, deixando de ser obrigatórias a partir da Efectiva Idade do Lazer (EIL), isto é, após os oitenta e cinco anos;

5 - As OCL públicas e privadas devem competir entre si em sobreposição ou subalternização, estando estruturadas para estimular as três capacidades fundamentais: dispensar com qualidade, comunicar com extremo ruído e agir sem sustentabilidade e fundamento;

6 – As OCL obrigam-se ao desenvolvimento de uma profissionalidade complementar, sempre provisória e transitória, através da qual os profissionais fiquem capacitados para exercer todas as tarefas que envolvam, basicamente, as duas acções/pilar da sociedade frentiquistense: desaprendizagem permanente (não identificando os problemas nem encontrando soluções) e inacção (não se preocupando as soluções);

7 - Nas OCL alunos e professores, formandos e formadores ou qualquer cidadão comum, têm acesso livre, via rede informática, aos pequenos e grandes repositórios de conhecimento do mundo sem se obrigarem a saber muito mais do que aquilo a que a sua imaginação possa chegar;

8 - Os Colégios Públicos e Privados (CPP) obrigam-se a designar todos os espaços de trabalho, como Espaços de Novidade (EN), não sendo considerado como obrigatório que sejam amplos salões com mesas redondas de doze lugares nem conveniente que se adeqúem a um potencial enquadramento para onze alunos (uma equipa) e um orientador-docente (um técnico);

9 - Os Colégios Públicos e Privados (CPP) obrigam-se ainda a facilitar o acesso à intranet e internet para que a generalização da utilização desta via promova, em tempo útil, a abolição de livros, cadernos, lápis, caneta e borracha e possibilitem a alunos e professores a posse transitória e a utilização provável de computadores portáteis, para a manipulação voluntária de guias de aprendizagem, recorrendo a bibliotecas, videotecas e hemerotecas virtuais, quando as houver;

10 – No Regime Transitório de Aplicação da presente legislação, para obviar as necessidades de Juntas Médicas, obriga-se cada docente a possuir na lapela um minúsculo e poderoso microfone que permita chegar a todos os salões, para que não forcem, minimamente, as cordas vocais.

11 – Salvaguardando que tanta facilidade digital, agora disponibilizada, possa invalidar ou limitar as habilidades cívicas, será criada uma Comissão de Sábios para a promoção da tradição oral e da memória efusiva que, residualmente, possam ainda persistir.

2º Sonho – Esta será a consulta que nunca farei no Psiquiatra

PSI – Por favor descalce-se, desaperte a gravata e deite-se na chaise longue.

PLAT – Como disse?!

PSI – Ó homem ponha-se à vontade!

E pus-me.

PSI – Muito bem. Faça o favor de se apresentar.

PLAT – O número do meu BI é o 3334453, o da carta de condução é o 122345 XZ, o da ADSE é o 679931 AB, o de contribuinte é o 1116780098 K, o meu NIB é 3456667800099912365433. Ai doutor que saudades eu tenho da minha mãe e do tempo em que para ela eu era apenas o Zé Ni!

PSI – Lembra-se exactamente do que fez há um ano? Nem mais um dia?

E lembrei-me.

PLAT – Há exactamente um ano, nem mais um dia, fiz um discurso na Aldeia de Cabeço de Mosto, na inauguração da água canalizada até à fonte pública! Só mesmo no local me disseram que tinha sido construída sobre uma linha de água.

PSI – Consegue lembrar-se com igual precisão do que fez há seis meses?

PLAT – Sim, creio que sim. Há seis meses despachei a autorização para a abertura de um concurso público para a adjudicação de mais duas torneiras no fontanário de Cabeço de Mosto.

PSI – E há uma semana?

PLAT – Então, há uma semana fui inaugurar as ditas cujas torneiras e processei, em defesa da honra, o Semanário Evidências, por difamação. Afirmavam que eu tenho andado basicamente a meter água no mosto!

PSI – Diga-me o que fez ontem.

PLAT – Ontem? Marquei oito dias de férias nas termas.

PSI – Então, qual é o seu problema?

PLAT – Ai, doutor, o meu problema! O meu problema? Então o meu problema é desde sempre, a bem dizer, a água.

PSI – A água? Desde sempre?

PLAT – Sim, sim, a água! Nasci num cacilheiro. Estudei na escola da Lagoa. Aos vinte anos ofereceram-me um cão de água. Endividei-me com o Copo-de-Água do meu casamento, sou alérgico à aguarrás e imagine que até no dia da minha tomada de posse, na Mãe de Água, choveu torrencialmente!

PSI – Não há dúvida que o seu problema é a água. Ofereço-lhe um café?

PLAT – Sim, por favor e com um copo com água se não se importa.

PSI – De modo nenhum. Aqui tem.

E tive.

3º Sonho – Conversa que nunca terei ao telemóvel com Alguém Infiltrado do Cuzaquistão (AIC) a partir do meu WC, porque mesmo que o sistema de escutas venha a ser comprado na loja dos trezentos e apenas se consiga gravar o que disser AIC, não quero que quem pague seja Grupo Recreativo dos Bombos de Vale do Tremoço, primeira associação a que pertenci.

PLAT – Estou? … Está lá? … Diga lá a contra senha: Já saiu o Pombo Correio!

AIC – Estou? Bem-vindo seja… Então não m’ouve?

PLAT - Ó homem coloque-se num sítio onde tenha melhor sinal!

AIC – O problema é o eco e o ruído arrotado do vento!

PLAT - Aqui há eco? Vento? Isso é impressão sua! Espere aí. Já me ouve melhor?

AIC – Desculpe mas estou a ouvir coisas estranhas! Parece-me a descarga de um autoclismo!

PLAT - Isso é impressão sua! Então diga-me lá como vão as coisas por aí.

AIC – Eu ouço mal. Mas sempre lhe digo que está tudo embaralhado!

PLAT - Mau! Tudo embaralhado? Essa agora!... Espere aí. … Veja lá isso!

AIC – Eu acho que estamos sobre escuta! Ainda agora me pareceu que alguém rasgou papel! Não ouviu?

PLAT - Isso é impressão sua!

AIC – Estou é preocupado com os apoios! Não ouviu agora? Parecia um fecho éclair.

PLAT - Outra vez? Veja se faz alguma coisa pois não queremos perder os fundos comunitários!

AIC – E são! São mesmo extraordinários os fungos que por aqui há!

PLAT - Quais fungos! Fundos! Subsídios! Claro! Ó pá, você é que deve animar a rapaziada para a nossa proposta!

AIC – Pois é a nossa malta aqui está mal disposta!

PLAT - Eu sei, eu sei, a confederação torna-se fundamental ou então o nosso projecto dá um grande tombo!

AIC – O quê? A nossa verba não chega para nada, quanto mais para um bombo e um fundo ambiental!

PLAT – Qual fundo ambiental, qual carapuça! O documento a produzir aí tem que ser a partir da nossa perspectiva presente!

AIC – Mas isso é claro! Muito influente!

PLAT - Ora influente? O primeiro rombo é o que você deve ser neste momento!

AIC – Mas, sabe, aqui já não há o lobby do cimento! E além do mais como é que eu posso ser o primeiro bombo?

PLAT – Cá me importa se a questão dos cimentos e dos tijolos! Isso agora ajuda pouco! Aliás nem é problema nosso! Não, claro que não, é problema seu! Enquanto o Pombo Correio aí não chega, sei lá, prometa-lhes qualquer coisa! Que um vai para aqui e outro para acolá, é uma questão de facilidade, não sei se me entende…

AIC – O pior é que o pessoal não está muito disposto a aceitar a mobilidade! Arranje aí uma coisa mais formal!

PLAT – Sim, pode ser! … Pode ser que se arranje um lugar de vogal… Faça como entender. … Não me deixe é afundar o barco!

AIC – Acha? Como é que podemos embandeirar em arco, com tão pouco para oferecer?

PLAT – Ó homem, barco foi apenas uma imagem e olhe que não estou a falar da Senhora de Fátima! O problema é mesmo a votação!

AIC – Já cá faltava a ameaça da rotação! Eu só gostava é de saber como vamos ganhar aquilo!

PLAT – Ora como? Arranje um gajo influente. Não importa que saiba pouco de todos os assuntos. O que interessa é saiba falar sobre todos os assuntos mesmo por pouco que saiba!

AIC – Como o Saraiva?

PLAT – Não, como o Pombo Correio!

AIC – Está bem, deixe lá que eu falo com o bombo Correia. Embora a ligação não esteja boa, finalmente entendi que é ele!

Temo que o Grupo Recreativo dos Bombos de Vale do Tremoço fique em estado de choque: Mesmo jurando-se inocente, Benvindo Correia, 1º Bombo do Grupo, depois de apresentado o relatório das escutas, será certamente preso sob a acusação de ser agente infiltrado.

4º Sonho – Como vou moldar as Sindicações e os Corporatos à minha imagem e semelhança.

Os Sindicavistas e os Corporatilistas da Conferderação de Talvez não sabem mesmo às quantas andam.

Os primeiros já perderam o conto aos anos que não visitam sequer o seu velho posto de trabalho. (Aliás, entre a maioria dos mais altos dirigentes das grandes Sindicações Laborais, os velhos postos de trabalho são denominados como gloriosos tempos de aprendizagem da luta).

Os segundos nem sequer ocuparam alguma vez a dedicada secretária nas empresas dos seus virtuosos papás. (De facto tiraram um curso de gestão numa das universidades religiosas, adquiriram uma pós-graduação algures entre a Suiça ou um dos mais selectos “counties” made in USA e entraram directamente para os comités executivos dos respectivos Corporatos Patronais).

O carácter regionalista de ambos permite uma permanente confusão de linguagem e atitude que muito agrada (e melhor serve) ao nosso governo. Ora não!

Receita de como preparar o Pacto Social (À mesa)

Na reunião preparatória do Pacto Social assim lhes falarei e assim me responderão:

PLAT – Caríssimos parceiros: Propus esta reunião na convicção de que só lutando unidos é que podemos conseguir uma mudança total e sustentada das estruturas e construir uma sociedade do conhecimento, neste desafio mundial globalizado. Sem barreiras sociais, sem info-exclusão, sem sectarismos primários ou secundários. Enfim, uma sociedade em que todos seremos exactamente iguais!

PRECLA (Presidente do Corporato Laboral) – Tem Vossa Excelência inteira razão. A união na luta sustentada há-de levar-nos à mudança das estruturas, sem info-sectarismos numa sociedade em que todos seremos exactamente barreiras!

PREFESIL (Presidente da Frente Sindicativa Laboral) – Lamento contraditar mas entendo que a nossa perspectiva de luta estruturada há-de globalizar mundialmente a mudança das barreiras sociais através do info-desafio do conhecimento para que todos sejamos exactamente sectários.

PLAT – Mas é claro que ninguém esperaria partirmos para uma concertação social previamente concertada. Que têm para oferecer?

PREFESIL – Gostaria de trazer para esta mesa um texto preliminar que passo a ler: “ Em verdade vos digo: mais fácil será a um camelo passar pelo buraco de uma agulha que a um rico entrar no reino dos céus!”

PRECLA – Isso é uma provocação?

PREFESIL – Não, é apenas a palavra do Senhor!

PRECLA – A minha palavra?! Ora eu nunca disse isso!

PREFESIL – Mas disse Jesus Nosso Senhor!

PRECLA – Sei! Tem toda a razão! Mas, sabe, que havemos de fazer? A situação económica e a contenção do deficit não nos permitem aventuras de aumentos de ordenados!

PREFESIL – Estamos fartos de palavras! Exigimos acção! Aliás já temos no terreno uma subscrição de assinaturas em apoio à nossa proposta de princípios teóricos para a concertação social e enviaremos brevemente o pré-aviso de uma enorme manifestação onde faremos ouvir o nosso coro de protestos!

PRECLA – Aumentos, aumentos! Mas que raio de sindicavistas são vocês que todos os anos retomam a perpétua lengalenga dos aumentos? Que sentimentos são os vossos que vos tornam incapazes de se afeiçoar dia-a-dia, mês-a-mês, ano-a-ano ao que ganham?!

PREFESIL – A ganância das mais valias há-de levar-vos a todos, governo incluído, a confrontar-se com o buraco da agulha!

PRECLA – Camelos!

PREFESIL – Cáfila!

PLAT – (Fingindo-se distraído, liga o telemóvel e em surdina diz à sua secretária) – Irene, telefone para o Museu de Ciência Natural e informe-se de todos os tamanhos que um camelo pode ter. Sim! Depois solicite a reserva de empréstimo do mais pequeno de todos! Se houver camelos anões tanto melhor! Claro que interessa registar o seu tamanho! Não, não desligue, ainda não terminei! Ligue de seguida para a Siderurgia Nacional, peça para ligar ao Engenheiro Chefe e passe-me a chamada! Ora para quê! Não, não é uma questão de greves! Não, é apenas uma questão de agulhas! Percebeu? Porreiro! Pronto!

PRECLA – Senhor Ministro: perante a posição irredutível do Presidente da Frente Sindicativa Laboral, proponho que adiemos a reunião por uma semana.

MIDTABUF – Mas uma semana é pouco!

PRECLA – Pouco?

PLAT – Sim, por causa do camelo, isto é, do limar da agulha, quero dizer das agulhas! Talvez quinze dias. Que me dizem?

PRECLAF e PREFESIL – Tudo bem!

PLAT – (Sorriso largo, acaricia o telemóvel e passa as mãos sobre os ombros de ambos) – Porreiro pá. Porreiro!

5º Sonho - A nova Abadia onde me farão santo.

Na Confederação de Talvez ou somos infelizes ou somos invejosos ou então pior ainda: somos tontos! Achamos que tudo nas Hespanhas é melhor que aqui.

Um dia ainda hei-de construir uma enorme abadia, para acabar com a eterna alegria das cinco capelitas.

Depois não faltará quem faça peregrinações à Abadia do Fundo da Íris para cumprir promessas como o faziam na Catedral de Todas as Aparições.

Ali chegarão os desiludidos com os resultados das promessas feitas nas cinco capelas.

E se um homem aproveitar uma das inúmeras excursões à nova abadia de Nossa Dama no Fundo da Íris para aí fazer uma nova promessa, já terá valido a pena.

Deslumbrado com tanto espaço interior (Gritará: Ena pá que grande estádio coberto!) e tanta riqueza decorativa (Gritará de novo: Ena pá uma parede toda em ouro!) e não estará com meias medidas: dirigir-se-á ao primeiro enfatuado que encontrar, certificando-se de que tenha cabeção ou gola alta.

Representando o papel de um banqueiro eu lá estarei, pois então!

- Então o senhor padre se não se importasse confessava-me?

- Como, se eu não sou padre?

- O senhor prior se calha já não é padre porque é cónego! Ó senhor cónego, confesse-me que eu não quero fazer uma promessa correndo o risco de morrer no pecado!

- Qual cónego, qual nada. O que eu sou é…

- Bispo!

- Banqueiro!

- Ah! O senhor prior é aquele padre com divisas de Bispo que toma conta dos bancos das capelas! Ó senhor prior Bispo Banqueiro confesse-me que eu pago!

-Não há nada a fazer. O melhor e confessá-lo, se não não me larga. Ajoelha-te, irmão.

- Sabe, o senhor prior da minha terra trata-me por filho!

- Pois seja. Ajoelha-te meu filho. Diz-me lá os teus bocados.

- Bocados?!

- Sim, bocados, pedaços de terra, pé de meia, dinheirinho e também os teus pecados da alma.

- Ai senhor prior, eu pequei muito. Ai!

- Pois pecaras menos e não te doera tanto. Diz-me cá, tens dinhei­ro, tens terras ?

- Alguma coisa tenho! Mas ó senhor prior banqueiro, eu fiz da minha mulher cabide! Isso é que foi!

- Cabide?! Penduraste-te nela? _

- Não senhor padre prior, atraiçoei-a, pusi-lhe os cornos! Com li­cença de Nosso Senhor, com letra grande!

- Ah sim? E como o fizeste?

- Ora como todos o fazim. Com outra mulherl

- Mas como foi, o que fizeste, o que disseste , com quem foi, o que disse ela, o que fez ela, tudo, tudo, conta-me tudo, estás a perceber?

- Saiba vossa reverendíssima que pequei deitado, assim como se fosse uma sandes de queijo: eu e a enxerga éramos as fatias e ela o queijo, non sei se tá a ver!

- Então não estou, estás absolvido!

- Já? Sem mais nada, senhor prior?

- Bem. Estás absolvido porque pecaste sem modernices ou animaladas. Estás perdoado desde que rezes as 3000 orações num minuto.

- Mas isso é impossível senhor prior bispo! Antes le pagava uma multa de dez érios por dia!

- Não és capaz? Então estás absolvido se depositares neste banco, aqui tens o cartão, todos os meses 10 notas em favor dos inocentes, está aqui o NIB!

- O NIB?

- O número da conta!

- Ai que bom que o senhor é! Graças a Deus que me tirou um peso de cima. Nem sabe o peso que me tirou!

- Sei, sei! Então não sei?! Olha, até vou rezar! Divino mestre dinheiro, minha luz, meu sol, meu tilintar de bolso que fazes de mim cativo e és o meu cativeiro, eu te venero e adoro! Abençoadas sejam todas as horas em que vens até mim! Reza também!

- Ao dinheiro?!

- Ao que tu quiseres, mas reza homem, reza!

- Dinheiro, meu bom amigo. Vais separa-te de mim. Por minha culpa confesso. Mas só te peço e te digo que, um raio ma parta se volto a cair nesta esparrela. Que linda mulher aquela... Paciência. Mais lindo é o meu dinheiro, que o senhor prior banqueiro me pediu prós inocentes! Valha-me Deus!

E será aqui que o abade da abadia de Nossa Dama no Fundo da Íris, que a tudo assistirá, entrará em cena (convém deixar funcionar a Concordata):

Meu filho, não invoques nunca o Santo Nome de Deus em vão! Querias pois, que Ele, Coração-Cheio-de-Amor, viesse cá abaixo?

A tanto não chegou, mas delegou em mim essa missão!

Estás, meu filho, perdido neste mundo cruel de gente mesquinha, que vive para te endemoniar o espírito, tirar-te a tranquilidade da alma provocando-te os maus e carnais pensamentos da ímpia vontade de dizer não!

Mas não digas, diz sim! E oferece uma dádiva, uma esmola, para pagar a abadia!

Fizeste bem, meu filho, em apelar às forças superiores e ocultas, às forças que estando por de cima dos homens, tem vontade de estar debaixo deles, digo, têm vontade de estar ao lado deles, isto é, em toda a parte.

Venho ajudar-te porque és pobre de espírito e os teus bens materiais, ou o vil metal, não podem por si só redimir as tuas preocupações.

A propriedade e o dinheiro, meu caríssimo filho, nunca vêm sós, já dizia o herege. Pela primeira vez tinha razão. Principalmente nesta época de desmandos, de corrida aos prazeres terrenos. Nesta época, filius meus, em que os homens, domina pater madestras, se esquecem que o dinheiro, esse maldito, vem acompanhado de favores, louvores, medalhas e perdições.

E, quanto a nós, palavra benta, única via para a salvação, precisamos da tua dádiva, dos teus sacrifícios, das tuas oferendas, das tuas, direi em linguagem metafórica, poupanças, para combater os denegridores da nossa civilização ocidental, cristã e a bem dizer marítima, para, de espada em punho e de alma inflamada, varrer os semeadores de ideias, de interrogações, de informações e, perdoado lhes seja, de escutas!

Eleva os olhos ao céu, confia em nós as tuas necessidades e, em contrapartida, te daremos luz, fé, caridade e amor paciente.

Mantém gravada esta mensagem e trilha assim o teu caminho en­tre nós, a Pátria e a santa família. Deixa primeiro a tua esmola para que depois assim seja. Ámen!

- Ámen também para si senhor abade e já agora para o senhor Padre Banqueiro (eu é claro)!

6º Sonho - Tenho a certeza que daqui por uns anos continuarão a andar agitadas as águas na Guarda Nacional. Faz parte do estilo e não há volta a dar.

Habituados à promoção sazonal de actividades festivas, alguns dos seus agentes hão-de dar-se conta de que as novas tecnologias, assim como todos os recursos, têm custos, dadas as restrições impostas pelo controlo do deficit e devem usar-se com parcimónia.

Por certo enviarão um dos seus dirigentes associativos fazer-me queixa, mas eu já estarei preparado.

Um Guarda NF – Ó Senhor Chefe, temos um problema!

PLAT – Ómessa?! Um problema?!

Um Guarda NF – É verdade chefe! Um problema inxolúvel!

PLAT – E qual é problema insolúvel?

Um Guarda NF – Já não podemos uxar os Teixeres!

PLAT – Os Teixeiras?!

Um Guarda NF – Nada dixo chefe! Já não podemos uxar as novas armas que lanxam agrafos eléctricos que dão choque!

PLAT – Ah, os Tasers! E então porquê? Estragaram-nos? Até agora só os tinham usado uma vez, naquela manifestação dos Corporatos, em Setembro!

Um Guarda NF – Eles estão bons, chefe! Não os podemos é cargar!

PLAT – Então porquê?

Um Guarda NF – O xargento do aprovigionamento diz que já não há verba para a carga! Por cauxa do deficit ou lá do que é!

PLAT – Então e depois?

Um Guarda NF – Ora depois! Depois é que nós temos que cumprir os objectivos da GNF para xermos bem avaliados e xem os Teixeres cargados não podemos! E depois comé que vamos a xargentos?!

PLAT – Não podem? Não podem porquê?

Um Guarda NF – Ora proquê! Proque tínhamos uma axão programada para próxima manifestaxão naxional dos Corporatos Educativos e agora comé que vamos enfrentar os manifestantes? À unha?!

PLAT – Não! De maneira nenhuma! Façam um magusto! Um magusto GNF!

Um Guarda NF – Essa é boa chefe! Então não há dinheiro para cargar os Teixeres e agora acha que já há para comprar castanhas?!

PLAT – Quais castanhas! Usem os bastões!

Um Guarda NF – AH! Já percebi! É a festa da castanhada! Porrada p’ra xima deles, até axar-lhes os lombos!

PLAT – Ora aí está! Esse é que é o Magusto GNF. Quem não tem castanha, assa com bastão! Percebeste?

Um Guarda NF – Então não percebi!

PLAT – Então qual é a palavra de ordem?

Um Guarda NF – Porreiro, chefe! Porreiro!

7º Sonho – Pelo caminho que as coisas têm tomado estou certo que nos próximos anos deveremos ser muito cuidadosos com os indicadores.

Antevejo a necessidade de ser muito cuidadoso com as notas de imprensa, sobretudo as que saírem do Ministério de Todos os Trabalhos.

Pelo sim, pelo não, escrevo-a já.

Nota à imprensa do Ministério de Todos os Trabalhos (& + 1) da Confederação de Talvez

Indicadores.

Contrariando as mal intencionadas notícias de que o desemprego está a aumentar na Confederação de Talvez, Sua Excelência o Senhor Ministro de Todos os Trabalhos (& + 1) entende por bem declarar o seguinte:

Apesar das infundadas atoardas que dão como certo o aumento do desemprego, importa contrariar a aparente verdade dos números com a certa tranquilidade dos novos indicadores.

Os estudos realizados por cada uma das cento e vinte comissões, para o efeito constituídas, permitem-nos considerar a criação do Projecto Integrador de Controlo da Animosidade (PICA) através dos indicadores que em seguida apresentamos e que contrariam a ideia de aumento do desemprego que a oposição insiste em repetir.

Indicador número um – Apesar de um Inverno pouco rigoroso, o volume das folhas que têm caído no presente Outono, asseguram-nos a criação de mil e trezentos lugares de Demonstradores de Outono. Para o efeito faremos sair brevemente a legislação de enquadramento que possibilitará a abertura, até à Primavera do próximo ano, dos Centros de Formação Específicos a partir dos quais se estabelecerão os lugares de estágio, cujo início está previsto para o Verão de daqui a dois anos. Todos os estagiários serão munidos de Agendas Bio Agradáveis, cuja produção efectiva e generalizada se assegura para daqui a três anos.

Indicador número 2 – Apesar do aumento inevitável do preço dos combustíveis, estamos em condições de garantir um esforço do governo na renovação do seu parque automóvel. Tal esforço vai possibilitar a criação de, pelo menos, dois lugares de Cyber Arrumadores Controladores de Aparcamento (CACA) por ministério e sede de Governo Civil. A formação desta nova profissionalidade (inovadora no contexto europeu) que decorrerá, nos próximos quatro anos, no âmbito do programa Novos e Oportunos Students (NOS), poderá gerar um fluxo produtivo de Ponteiros Sensíveis (PS). Para o efeito será aberto um concurso de ideias e criado um Conselho de Sábios, para avaliar todas as propostas nacionais e organizar o respectivo concurso internacional.

Indicador número 3 – Apesar da acentuada quebra do comércio tradicional e do inevitável encerramento de muitas lojas com atendimento de proximidade, estamos em condições de garantir que nas novas e imensas superfícies comerciais, licenciadas especificamente para as periferias das cidades (Fóruns, Centros ou Mega Stores), mas sempre perto das novas ciclo vias SCTUC (Sem Custos Transitórios de Utilização) serão criados, pelo menos mil lugares de demonstradoras provisórias. Desta notável iniciativa decorrerá o desenvolvimento produtivo de duas unidades industriais de produção de AMS-CR (auto mini saias de controlo remoto) cuja dimensão será controlada, de acordo com as necessidades e as conveniências, pelos Gestores de Demonstração, especialidade profissional para a qual já está decorrer a elaboração do pré projecto de Pós-Graduação.

Indicador número 4 – Compreendo a acentuada quebra dos Delegados de Propaganda a que, por teimosia, a oposição teima em designar de Caixeiros Viajantes, tem o governo preparado um conjunto de medidas que visam introduzir nos Call Centers, os Divulgadores de Ilusões (DDI) equipados com a última tecnologia de atendimento as TO-TE (Terceiras orelhas Third Ear). Os DDI realização uma formação pré-profissional específica, também no âmbito do programa Novos e Oportunos Students (NOS) ao qual se seguirá um estágio de enquadramento curricular de dois anos.

Indicador número 5 – Prevendo a continuação da seca, estamos a desenvolver estudos para a implementação profissional de Higienizadores Comunitários (HIC), a formar pelo NOS, os quais serão equipados com Baldes Multifunções (BM) cujo ante projecto de industrialização já foi aprovado em Conselho de Secretários de Estado.

Indicador número 6 – A estrutura ministerial para a educação, tentando resolver de uma vez a questão da violência nas escolas, vai propor às Escolas de Formação Educativa (EFE) a criação de cursos de monitores/treinadores para os Clubes Escolares de Kick Action (CEKA) na área desportiva do Bulling Júnior, a criar na próxima reforma educativa do sistema.

Indicador número 7 – Recuperando algumas das melhores práticas comunitárias do século passado, conjugadas com as tecnologias de ponta, serão criados, em todas as autarquias, lugares de Leitores Colectivos, a formar no NOS cujo equipamento serão cornetas de latão revestidas a vime e células foto-voltaicas (CLR/VCF-V). Espera poder dotar-se as autarquias das verbas necessárias até ao final da presente legislatura.

Indicador número 8 – Na conjunção dos indicadores anteriores o Projecto Integrador de Controlo da Animosidade (PICA) possibilitará a criação de 50 Quadros Superiores – 125 Quadros Intermédios – 250 Quadros Básicos e 1500 Quadros Estagiários, para os quais já foi aprovada a respectiva dotação orçamental.

Por seu lado as 120 Comissões gerarão, de forma controlada, 53 Gabinetes de Apoio Jurídico e 1 Conselho de Sábios que serão, no âmbito da mesma dotação orçamental, apoiados por 10 Equipas Técnicas de Apoio às Ideias e 25 Gabinetes de Assessoria de Imagem e Eventual Tradução.

Novas taxas – Desejando que este esforço seja acompanhado por uma implicada comparticipação do exercício da cidadania, serão criadas apenas 2 taxas e 1 imposto de suporte ao Projecto Integrador de Controlo da Animosidade (PICA): A Taxa Sobre o Sorriso Mal Gargalhado, a Taxa Sobre o Esforço de Falhado de Contenção e o Imposto Único Sobre a Gargalhada Inevitável.

Nota preocupada nº 1 – Desconfio que anda a grassar algum descontentamento no enclave de Além Tojo. É melhor mandar investigar este texto que me chegou dentro de um ovo de Páscoa.

Os que vivem no poleiro? Haja lá quem os entenda!

Para mim quem põe um ovo

É ovíparo ponente

Mas se põe um ovo mole

É só galo incontinente.

Há aí quem muito ponha

Ovos moles de poleiro

Temperados pela ronha

Que abunda no galinheiro.

Às crises de coerência

Mandam pintos pró coreto

Fingem-se em abstinência

Porém sonham com o espeto!

Para assarem nessa grelha

Estão sempre a pensar em nós

Com uma receita velha

Que é dos tempos dos avós.

Estes galos têm jeito
Para fazer provas reais
E batem com as mãos no peito

Imitando os Cardeais.
Fingem que têm fastio
Do tilintar de um sorriso

E cantando ao desafio
Dão-nos cabo do juízo.

Se alguém ao bico lhes manda

Milho roxo em vez de alpista

Agitam-se em sarabanda

Arrebitando a crista.

Agarram-se a antigas glórias

Em cantilenas devotas

Transformando em vitórias

Todas as suas derrotas!

Vivem à espera de palmas, que ilusão

Pode ser que enganem muitos

A nós não!

Padre. Com

Nota preocupada nº 2 – Agora já tenho a certeza que anda a grassar algum descontentamento no enclave de Além Tojo. Temos que meter na ordem os Além Tojanos e todos os que pensam como eles! Fica expressamente proibido distribuir este folheto que felizmente consegui reter.

O Coro dos desalentados

Excelência:
Desta nossa missiva, ora enviada,
Faça dela o que seu siso lhe ditar,
Usando-a no melhor enquadramento:
Em sapiência
Use-a como queixa avisada
Mas se for, de intolerante, considerada
Use-a para limpar, no WC, o vosso assento.
Primeiro Senhor: na nossa região

Lavrar este deserto é sempre em vão

Mesmo que suada fique a cueca e a camisa

E apesar da Portaria que nos avisa

Insistimos em vencer a seca que nos ataca

Mas falta-nos o adubo, isto é, a caca.

E afinal, senhor, para governar a nossa vida

E adubar a terra de onde vem toda a comida

Nós precisamos, de facto é de MERDA!

O que para si, sabemos, não é perda.


Aos membros do Conselho que tão bem dirige

Solicitamos que, tomado a sério o que por nós se exige
(e seriedade, sabemos, é coisa que V. Exa. prima),
Decretem uma cagada geral bem em cima
De cada pedaço de terra a que o amor nos pega

E já agora mijar também, que faz de rega.

Não temam os doutos governantes em nos visitar

Sempre que tiverem vontade de se aliviar:

Na tranquila mansidão de um montado

Ou num pousio de estevas não lavrado

Podem depositar os vossos excrementos

Sem temer ficar vermelhos por momentos.

Não temam que se escape uma bufa inoportuna
Pois para nós um gás de poia é já fortuna.
Quantos não tiveram já a esperança vã
De um traque de Ministro pela manhã?
Aqui até já há quem, por ter parco recurso,
Mal distinga um peido de um discurso.

Se cá vierem nem precisam falar pois, com franqueza,
Afinal a maior fonte de riqueza,
Nos grandes textos ou mesmo nas páginas amarelas,
Provém da bosta que escrevemos nelas.


Pois afinal, senhor, para governar a nossa vida

E adubar a terra de onde vem toda a comida

Nós precisamos, de facto é de MERDA!
O que para si, sabemos, não é perda.

Para quê adubos de produção transgénica?

Mandem-nos é caca oficial e higiénica,
À falta de melhor, para este interior, todos os meses.

Não somos nós o penico dos portugueses?

Nos vasos das varandas e nos jardins das rampas

Vão-nos faltando as riquezas das trampas.

Por isso as terras destes empobrecidos interiores

São o desespero de enxadas e tractores

E perdem-se com a burocracia dos projectos

Na nostálgica saudade dos dejectos.

Ah tonitruantes gases cujo som ecoa

Em todos os lavabos dos gabinetes de Lisboa!

Por aqui já pensamos que a vossa voz

É mais uma desculpa para não pensar em nós!


Ora afinal, senhor, para governar a nossa vida

E adubar a terra de onde vem toda a comida

Nós precisamos, de facto é de MERDA!

O que para si, sabemos, não é perda.


Aqui, para promover qualquer ideia,
o que faz falta é gente a desfazer-se em diarreia!

Nós produziremos de tudo um pouco em qualquer escala

Mesmo que só nos chegue bosta rala.

Mandem qualquer porcaria à vontade:

Já perdemos a ilusão da qualidade.

Não se esqueçam é de nós nas vossas visitas:

Poinhas, cagalhões ou caganitas,

Fruto da boa vontade ou de campanha descomposta!

Só por se lembrarem de nós a gente gosta!


Porque afinal, senhor, para governar a nossa vida

E adubar a terra de onde vem a nossa comida

Nós precisamos, de facto é de MERDA!

O que para si, sabemos, não é perda.

Os desalentados do Além Tojo

Agora a sério.

Imaginem se todo o pouco que desejamos para todos, fosse assim tanto como este pouco que partilhamos entre nós?

SE TODO O POUCO FOSSE ASSIM TANTO

Se todo o pouco

fosse assim tanto

até as pedras mais aguçadas

ganhariam arredondado encanto.

Se todo o pouco

fosse assim tanto

qualquer silêncio sorrido

se transformaria em manto.

Se todo o pouco

fosse assim tanto

até o tempo inexorável

se acalmaria vencido pelo espanto.

Se todo o pouco

assim tanto fosse

(porque assim somos)

o mundo seria, por certo, bem mais doce

do que aquele de que dispomos!





SERÁ QUE É O FIM?

POR AGORA SIM!